A engenharia diagnóstica e a contribuição ao setor de edificações da construção civil

O histórico da atividade pericial remonta ao final da década de 1970 diante da edição do Vocabulário Jurídico, que definiu o significado do termo Perícia, de origem etimológica latina, que significa a pesquisa, o exame e a verificação acerca da verdade ou da realidade, realizadas por pessoas que possuam habilidade ou experiência na matéria.

Desde esse período, a atividades de engenharia brasileira utilizou-se desses termos jurídicos com o objetivo de se nivelar o conhecimento e a linguagem sobre as peças de matéria jurídica e de matéria técnica. Com o avanço da ocorrência de falhas, anomalias, assim como as divergências de toda ordem, tanto na construção, como nos diversos ramos cujas engenharias respondiam, novos conceitos e terminologias foram surgindo e dificultando o entendimento por parte dos leigos, juristas e pelo próprio meio técnico, acerca do resultado das avaliações.

Nesse ambiente, a sociedade civil percebeu a necessidade de organização, e já em 1979 a criação do IBAPE – Instituto Brasileiro de Perícias e Avaliações – ocorreu com o intuito de difundir e de padronizar certos conceitos, ainda que nesse primeiro momento, na área de avaliações e perícias imobiliárias. Foi só em meados da década de 1990, que o IBAPE lançou uma publicação criando critérios com a finalidade de parametrizar esse novo ramo da engenharia que surgia.

Foi nesse contexto que em 2005, o professor Tito Lívio, então membro do Instituto de Engenharia, percebeu uma correlação existente entre a Medicina Diagnóstica e a Engenharia e lançou as bases de uma nova disciplina, inspirado em experiências norte-americanas e inglesas, que visavam, enfim, criar parâmetros acadêmicos concisos acerca do tema: A Engenharia Diagnóstica.

A Engenharia Diagnóstica, junto a Engenharia de Avaliações compunham o que é considerado hoje a moderna Engenharia Legal, que pode ser conceituada como uma ciência da observação e da arte de se utilizar dos conhecimentos técnicos-científicos, legais e empíricos nas perícias e avaliações nos mais diversos ramos das engenharias, com vistas a criar provas jurídicas.

A Engenharia Diagnóstica em Edificações foi concebida diante da necessidade de ação em decorrência do conhecimento da verdade. As anomalias e falhas recorrentes nas construções e edificações prediais, dentre outros aspectos de natureza diversa, instigaram o meio técnico a lançar as bases dessa disciplina que, através de diagnósticos, prognósticos e prescrições técnicas visam alcançar a qualidade total.

A Engenharia Diagnóstica definiu ferramentas que possibilitam constatar, analisar, atestar, apurar e tratar proativamente a verdade do fato. A vistoria, a inspeção, a auditoria, a perícia e consultoria, são essas ferramentas.

  • A Vistoria em Edificação é a constatação técnica de determinado fato, condição ou direito relativo a uma edificação, mediante verificação in locu.
  • A Inspeção em Edificação é a análise técnica de fato, condição ou direito relativo a uma edificação, com base em informações genéricase na experiência do Engenheiro Diagnóstico.
  • A Auditoria em Edificação é o atestamento técnico, ou não, da conformidade de um fato, condição ou direito relativo a uma edificação.
  • A Perícia em Edificação é a determinação da origem, causa e mecanismo de ação de um fato, condição ou direito relativo a uma edificação, com base em informações detalhadas colhidas no local e/ou documentação.
  • A Consultoria em Edificações é a prescrição técnica a respeito de um fato, condição ou direito relativo a uma edificação.

A indústria da construção civil possui grande importância econômica para o país, respondendo por cerca de 7% do PIB brasileiro. O setor imobiliário, representa ainda, por volta de 20% do total do setor de serviços no Brasil. Diante de toda essa importância econômica, a contribuição da Engenharia Diagnóstica também é uma contribuição para a economia brasileira.

A Engenharia Diagnóstica como uma nova disciplina da engenharia contribui inicialmente, num aspecto mais geral, na criação de padrões de análises, estudos, pesquisas acadêmicas e terminologias, que só a partir desse ponto, são passíveis de “conversarem” e transferirem conhecimento. Da mesma forma que uma normalização visa, inicialmente, uma possibilidade de que as informações sejam trocadas por diferentes entes envolvidos numa determinada área de pesquisa, de estudo, ou profissional. A Engenharia Diagnóstica, possibilita, através de um entendimento mútuo, a transferência de tecnologia entre os diversos atores que trabalham com a mesmo ofício, e com o objetivo de atingir a realidade do ocorrido.

A importância de uma linguagem comum a todos principalmente em matérias jurídicas, bastante presente hoje no setor imobiliário, minimiza a possibilidade de ocorrência de deficiências de entendimento, por parte dos juristas, potencializando, desse modo, a verdade em si, impondo que a argumentação ocorra no mérito e não na semântica.

A produção antecipada de provas e o registro de condições atuais e pretéritas face a realização de vistorias, promovem um maior entendimento do caso, que é de suma importância para a solução do dissídio.

No aspecto extrajudicial, a experiência profissional do próprio autor, indica que quando todas as partes envolvidas em discussões conversam sob uma mesma linguagem e sob um mesmo grau de conhecimento, a possibilidade de que as soluções ocorram nessa esfera, fora do judiciário aumentam, reduzindo os gastos tanto de empresas produtoras quanto de reclamantes, favorecendo ao setor.

Do ponto de vista econômico, os benefícios ao setor ainda são mais proeminentes. A padronização e a catalogação de dados; a possibilidade de comparações entre dados de épocas e locais diferentes; a necessidade de geração de dados e; a importância que os dados passaram a possuir, passam a influenciar as decisões das empresas, que transformando esses dados em informações podem melhorar sobremaneira seus processos produtivos, aumentando a eficácia e eficiência dos seus sistemas.

Alguns exemplos podem ser dados acerca da melhoria de processos por parte de uma empresa em função da utilização da Engenharia Diagnóstica: O Laudo Técnico de Inspeção de Entrega de Obra, certamente, trará muitos dados acerca do processo executivo e de controle da empresa. As anomalias construtivas observadas pela Inspeção servirão de feedback para que os engenheiros regulem suas decisões, assim como, a não ocorrência de anomalias, podem validar certas decisões tomadas, acarretando em melhorias no aspecto econômico e, também, um aumento da qualidade do empreendimento, inclusive sendo aquela, consequência dessa.

A Engenharia Diagnóstica é uma disciplina que no presente, mas, ainda mais no futuro com a sua disseminação, está e estará promovendo um enorme ganho ao setor da construção imobiliária. A potencialização da qualidade total das edificações; a influência positiva na obtenção da verdade dos fatos na esfera jurídica; a diminuição da judicialização das questões entre construtores e clientes; e o ganho econômico de todos esses aspectos, são as principais contribuições da Engenharia Diagnóstica para o aprimoramento da Qualidade dos Empreendimentos Imobiliários.

Fábio Giovanni

Engenheiro civil formado pela Universidade Federal da Paraíba, Membro do IBRACON, Alconpat e ACI, publicou vários trabalhos científicos em congressos e simpósios nacionais e internacionais, na área de construção de edifícios, gestão e gerenciamento da construção civil e patologia das estruturas.

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Técnica de injeção de fissuras

Em virtude da última postagem, recebi muitas mensagens pelo direct solicitando maiores explicações sobre a tecnologia de injeção de fissuras nas estruturas de concreto armado. Então, farei esta postagem pra explicar um pouco melhor.   A técnica consiste basicamente em se aplicar os bicos de injeção, ora em furos realizados com brocas de diâmetro específico, ora aderidos sobre a superfície do concreto, espaçados estrategicamente no caminho (path) da fissura; vedar a fissura ou quaisquer outros vazios que possam estar conectados com as fissuras na região entre bicos (ou próximos deles) com uma resina tixotrópica, geralmente a epoxídica; aplicar (injetar) nos bicos, uma resina mais fluida, ou até materiais inorgânicos; escolher uma direção de aplicação mais adequada ao material adotado e mais adequada em função do grau de preenchimento da fissura que se deseje. (a) (b) (c) Fig. 1 – Detalhe da sequência de atividades (a) realização dos furos; (b) aplicação dos bicos de perfuração; (c) colmatação das fissuras com resina tixotrópica   Existem duas situações gerais em que a injeção é adotada como forma de recuperação. A primeira ocorre quando é necessário colmatar uma fissura que esteja submetida a um fluxo de algum fluido, ou esteja na possibilidade de ocorrer (em muros de arrimo ou contenções em contato com água). Nessas situações, é mais indicado a utilização de selantes como material de injeção, as resinas acrílicas e poliuretânicas e/ou a resinas poliuretânicas hidro expansivas. Caso o fluxo seja atual e contínuo, primeiramente, injeta-se a resina hidro expansiva e depois o selante de poliuretano. Nessas situações as fissuras podem possuir causa ainda ativa, ou seja, fissuras cuja causa ainda não foi sanada. Na segunda situação, o objetivo é reestabelecer a monoliticidade do elemento estrutural, de modo que as transferência de carregamento ocorra normalmente e a rigidez do elemento estrutural seja reestabelecida.

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Arquitetos Importantes

Nascido em Sandrio, Italia no ano de 1891, Pies Luigi Nervi viveu sua infância entre paisagens cheias de geleira e caminhando entre picos nevados. Foi um jovem prodígio fascinado pela matemática e pelo cálculo convencional e isso deu seguimento a sua formação fazendo-o se inscrever para engenheiro civil na Bolonha. Uma vez concluída sua carreira, em 1913, o engenheiro se dedica a construção de fabricas e pontes de onde viajava constantemente entre Bolonha e Florença, acumulando experiências e conhecimentos. Os dias passaram entre suas viagens quando seus olhos foram abertos e toda a Itália encontrava-se sob a mudança no jeito de viver e sobreviver, estava se iniciando a Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, essa infeliz situação não freou o trabalho de Nervi. Alistado no corpo de engenheiro, combateu de frente, onde sua engenhosidade e criatividade foram significativas para consertar pontes e construir caminhos essenciais em meio a Guerra. Dois anos depois de concluída a primeira Guerra mundial, fundou seu próprio escritório onde começou a ganhar fama e prestigio e teve seu primeiro grande feito, a construção do Cinema-Teatro Angus, uma sala onde se fez presente grandes produções cinematográficas de todo o mundo. Ao final do trabalho, ficou claro que os telhados seriam a sua marca registrada. A construção espetacular mostrava uma abertura para ficar no centro da obra onde um problema matemático complexo era resolvido. Em 1929, vence concurso de construção que lhe permitiu construir o estádio Municipal de Florença, também conhecido como Stadio Comunale Artemio Franchi. Ao concluir a obra, em 1932, as pessoas ficaram chocadas com a construção e com sua forma oval e assimétrica onde se destacava o teto tribuna. O convés se estendia para a frente, apoiando longas vigas de concreto em formas de X e que se escondiam entre as arquibancadas. Isso deixou um precedente

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Arquitetos Importantes

Eugène-Emmanuel Viollet-Le-Duc nasceu na capital Francesa no dia 27 de janeiro de 1814, vindo de uma família burguesa que cultivava a pratica das artes e cultura, iniciou sua carreira na área da arquitetura e no desenho no ano de 1830, onde seus estudos e experiencia vasta, lhe proporcionaram um domínio sobre estilos arquitetônicos, técnicas construtivas e sobre a arquitetura da idade média. Quando terminou os estudos, optou por aprender a pratica da arquitetura, Indo trabalhar no ateliê dos amigos Jean-Jacques Huvé e Achille Leclère, ao invés de estudar na (École des Beaux-Arts) Escola de Belas Artes, por achar que se tratava de uma escolha de estudo muito arcaica. Para aumentar o interesse e experiencia pela arquitetura medieval, decidiu fazer uma viagem pela Itália e França, aprofundando o conhecimento sobre a arquitetura Clássica e Grega. Sua carreira se consolidou principalmente na área do restauro, mais precisamente em catedrais e castelos medievais, se tornando um dos principais integrantes da comissão encarregada da preservação dos monumentos históricos. Em 1836, participou da restauração em Saint Chapelle, mais tarde considerado pelo próprio Viollet como um laboratório experimental. Seus trabalhos e experiencia se somaram com o passar dos anos com um currículo bastante vasto, podendo-se destacar a Igreja de Vézelay, Notre-Dame de Paris, Carcassone, Saint-Sernin de Toulouse, e Amiens. No ano de 1849 Viollet-Le-Duc e Mérrimée, publicaram uma introdução técnica sobre a restauração dos edifícios diocesanos. Texto considerado fundamental, tendo grande influência na formação de profissionais da área. No inicio de tudo, sua função se limitava apenas em restaurar as formas originais dos monumentos. Porém, mais tarde, passou a acrescentar aos edifícios elementos de sua própria autoria, passando a ser visto com reservas por arquitetos e arqueólogos do século XX. Foi nomeado inspetor geral dos edifícios diocesanos em 1853, ficando encarregado do resguardo de várias igrejas

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