“Cronograma para inglês ver”

Não deve ter existido apenas uma origem para o surgimento dessa expressão. Mas, segundo a maioria dos especialistas, a fonte mais provável data de 1831, quando o Governo Regencial do Brasil, atendendo às pressões da Inglaterra, promulgou, naquele ano, uma lei proibindo o tráfico negreiro e declarando livres os escravos que chegassem aqui, além de punir severamente os importadores. Porém, como o sentimento geral era de que a lei não seria cumprida, teria começado a circular na Câmara dos Deputados, nas casas e nas ruas, o comentário de que o ministro Feijó fizera uma lei só “para inglês ver”.
Revista Superinteressante 184 (2003)

Há algum tempo, tive a oportunidade de ler um artigo na revista Edificar (edição numero 005) onde engenheiros, construtores, e empresários da construção imobiliária de João Pessoa manifestavam suas preocupações com o desempenho de seus empreendimentos, destacando como uma das causas dos retardos da conclusão das obras “o cronograma apertado”, identificando falhas na elaboração do planejamento dos empreendimentos.

Sabemos que o planejamento adequado de uma obra permite ao administrador um elevado nível de conhecimento sobre sua execução futura possibilitando mais eficiência na condução das atividades. Conhecimento pleno do “plano de ataque” da obra, relacionamento com o orçamento, racionalização do uso dos recursos, referencia para objetivos, informações confiáveis para tomada  abr/2017 de decisões, análise de riscos e criação de base de dados, são benefícios conhecidos que o bom planejamento oferece.

Entretanto, como abordado na matéria da revista Edificar, são freqüentes os casos de insucesso relatados, que, quando estudados, apontam para alguns fatores causadores das deficiências no planejamento e controle de obras, a saber:

  • O planejamento é encarado como um processo sob a responsabilidade da área técnica da empresa. De forma simplificada, seu produto final, o cronograma, serve apenas para atender aos requisitos impostos pelo contrato, sendo apresentado sob forma de tabelas, planilhas e gráficos, que, na maioria das vezes, não são analisados adequadamente e sequer são submetidos às equipes que irão fazer a obra;
  • Os cronogramas são desacreditados por terem sido elaborados com base em premissas que poderão não ocorrer durante a execução da obra, inibindo assim, a utilização de um processo técnico de previsão de cenários e impactos nos serviços da obra. Prevalece a cultura de que a construção civil é uma atividade onde desperdícios, desvios e informalidade são inerentes aos seus processos produtivos;
  • O planejamento é quase sempre informal, de curto prazo, e através de ordens verbais e diretrizes transmitidas pelos engenheiros aos mestres de obra. Nesse cenário, se destacam profissionais extremamente admirados nas empresas, conhecidos como “tocadores de obras”, que são pessoas tradicionalmente reconhecidas por sua experiência profissional, autoconfiança e capacidade de resolver problemas com rapidez. Em conjunto, planejamento informal e tocador de obras, representam o modus operandi em várias obras, em substituição ao planejamento formal elaborado com base nas boas técnicas existentes.

Na ocasião do referido artigo, quando o mercado imobiliário se encontrava aquecido e havia grande disponibilidade de crédito para produção e comercialização de unidades habitacionais, majoritariamente disponibilizado pela Caixa Econômica Federal, participamos de alguns empreendimentos ofertando suporte técnico às empresas. Eram empreendimentos importantes para o mercado local, para os patrocinadores e partes interessadas. Individualmente, os orçamentos ultrapassavam a cifra dos vinte milhões de reais, e tinham, entre outras restrições do contrato de financiamento, o cumprimento de um cronograma máximo de vinte e quatro meses para produção. “Cronogramas apertados”? Vejamos:

Analisando alguns cronogramas elaborados para os contratos de financiamento, que deveriam ensejar, a duração dos serviços e da obra, e os respectivos custos dos serviços e da obra, observamos a inexistência de uma abordagem orientada ao processo produtivo, que considerasse, minimamente, a capacidade de mobilização do empreendedor e a disponibilidade de alocação de recursos, que possibilitasse o desenvolvimento de cronogramas realísticos. Aparentemente, o “esforço de planejamento”, se limitava ao preenchimento do formulário denominado “cronograma físico-financeiro” disponibilizado pelo agente financeiro, peça estática e que se presta a orientar o plano de desembolso mensal das parcelas do financiamento.

À luz das técnicas e métodos para elaboração de cronogramas, como o conhecido CPM – Critical Path Method, ou, mais recentemente, o Lean Project Management, e o CCPM – Critical Chain Project Management, podemos intuir que são cronogramas “para inglês ver”. Pois, se interpretados como instrumento de planejamento e controle de obras, podem provocar atrasos e desvios na obtenção dos benefícios esperados.

Assim, conforme atestado pelos depoimentos dos empresários do setor à época do “boom imobiliário” e a qualquer tempo, sempre será oportuno que a indústria da construção civil dedique maiores esforços no desenvolvimento das atividades de planejamento e controle de obras com o objetivo de sanear as falhas elencadas e melhorar o desempenho final dos empreendimentos.

Luiz Augusto

Engenheiro civil pela Escola Politécnica de Pernambuco; pós-graduado em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo – FGV; pós-graduado em Gerenciamento de Projetos pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas do Rio de Janeiro – FGV; diretor-sócio da LCF – Empreendimentos e Participações Ltda.; com experiência profissional em Projetos de Construção Imobiliária.

Compartilhe

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram

entre para nossa lista VIP e receba conteúdos com exclusividade

Veja mais

Análise Dinâmica das Estruturas: Vento (parte 01)

O recente terremoto que atingiu a Síria e a Turquia, causando um grande número de mortes, ganhou destaque em todo o mundo, incluindo o Brasil, especialmente entre os engenheiros. Eventos sísmicos como esse, despertam a atenção de profissionais que trabalham na área da engenharia estrutural, pois podem causar consequências graves para as edificações, além de perdas humanas e econômicas significativas. E no Brasil, será que haveria a necessidade de preocupação com terremotos ou ventos de alta velocidade? Antes de responder a essa pergunta, é importante explorar um pouco mais sobre o assunto. Nesse primeiro texto, será abordado a ação do Vento, sendo este uma das portas de entrada para a compreensão do comportamento dinâmico das estruturas. O Vento A disciplina que trata de ações que produzem vibrações nas estruturas é denominada de Análise Dinâmica. Geralmente, este assunto não está inserido na grade curricular dos cursos de Engenharia Civil, sendo abordado em programas de pós-graduação. Conceitos Básicos da Dinâmica das Estruturas de Edifícios Um problema de dinâmica estrutural difere de seu equivalente estático em dois importantes aspectos: o primeiro é a variação temporal, isto é, o carregamento e a resposta dinâmica variam com o tempo, o segundo trata-se do surgimento de forças inerciais, associadas às acelerações, forças de dissipação, usualmente associadas às velocidades.  As equações de movimento de um sistema podem ser obtidas utilizando o princípio de D’Alambert, que estabelece um equilíbrio dos esforços resistentes, de inércia, de amortecimento e do esforço externo aplicado para os graus de liberdade da estrutura. As equações diferencias do movimento são: Nota-se que a parcela estática ensinada na graduação em engenharia civil é; ku=F, sendo “F” as forças externas estáticas. Para resolver o sistema de equações diferenciais supramencionado emprega-se o modelo massa-mola, conforme a figura abaixo: que faz analogia ao sistema estrutural: A resolução dessa

Saiba Mais »

Técnica de injeção de fissuras

Em virtude da última postagem, recebi muitas mensagens pelo direct solicitando maiores explicações sobre a tecnologia de injeção de fissuras nas estruturas de concreto armado. Então, farei esta postagem pra explicar um pouco melhor.   A técnica consiste basicamente em se aplicar os bicos de injeção, ora em furos realizados com brocas de diâmetro específico, ora aderidos sobre a superfície do concreto, espaçados estrategicamente no caminho (path) da fissura; vedar a fissura ou quaisquer outros vazios que possam estar conectados com as fissuras na região entre bicos (ou próximos deles) com uma resina tixotrópica, geralmente a epoxídica; aplicar (injetar) nos bicos, uma resina mais fluida, ou até materiais inorgânicos; escolher uma direção de aplicação mais adequada ao material adotado e mais adequada em função do grau de preenchimento da fissura que se deseje. (a) (b) (c) Fig. 1 – Detalhe da sequência de atividades (a) realização dos furos; (b) aplicação dos bicos de perfuração; (c) colmatação das fissuras com resina tixotrópica   Existem duas situações gerais em que a injeção é adotada como forma de recuperação. A primeira ocorre quando é necessário colmatar uma fissura que esteja submetida a um fluxo de algum fluido, ou esteja na possibilidade de ocorrer (em muros de arrimo ou contenções em contato com água). Nessas situações, é mais indicado a utilização de selantes como material de injeção, as resinas acrílicas e poliuretânicas e/ou a resinas poliuretânicas hidro expansivas. Caso o fluxo seja atual e contínuo, primeiramente, injeta-se a resina hidro expansiva e depois o selante de poliuretano. Nessas situações as fissuras podem possuir causa ainda ativa, ou seja, fissuras cuja causa ainda não foi sanada. Na segunda situação, o objetivo é reestabelecer a monoliticidade do elemento estrutural, de modo que as transferência de carregamento ocorra normalmente e a rigidez do elemento estrutural seja reestabelecida.

Saiba Mais »