Escoramento e a recuperação estrutural

No dia 10 de dezembro último, um sinistro ocorrido em um edifício residencial multifamiliar, localizado no bairro de Manaíra em João Pessoa, ocasionou uma enxurrada de comentários e opiniões acerca de escoramento durante as atividades de recuperação estrutural.

Um pilar de canto da estrutura da referida edificação sofreu uma flambagem localizada das armaduras em sua metade superior. O prédio estava passando por intervenções estruturais em decorrência da corrosão das armaduras da estrutura de concreto armado. O pilar atingido ainda não tinha sido alvo das atividades de recuperação.

Primeiramente, gostaria de esclarecer o mecanismo por trás do escoramento de uma edificação. O sistema de escoramento serve ou, para suportar parte da carga de uma edificação que, por algum motivo, perdeu desempenho ou ainda não atingiu o desempenho adequado; ou para aliviar os carregamentos atuantes com a finalidade de ativar reforços estruturais. Outra fato importante, é que, uma estrutura (já executada) ou parte dela não pode ser completamente descarregada, pelo simples fato que a carga caminha (path load) para onde há rigidez, ou seja, apesar de a rigidez das escoras juntas ser elevada, essa rigidez não é infinita em relação aos pilares.

Em uma estrutura, as vigas e lajes respondem pelo carregamento de determinado pavimento, já os pilares, respondem pelo carregamento dos pavimentos que estão acima daquele trecho específico. Isso parece lógico, não é? Parece sim, mas o senso comum criado por alguns “especialistas” tirou a capacidade de raciocínio das pessoas. Já no colapso do Ed. Andrea em Fortaleza, ouvi muita gente, inclusive engenheiros, comentando que uma das causas do desastre, teria sido a falta de escoramento durante as atividades de recuperação.

Na recuperação tradicional de vigas ou lajes, o escoramento dos elementos estruturais que contribuem para o carregamento daquela peça que está sofrendo intervenção, faz todo sentido, já que é possível descarregar o elemento e, ao recompor o material demolido, esse passa a receber carga após a recuperação, no entanto, em pilares, a coisa é bem diferente. Como a carga atuante em um pilar é o resultado do carregamento da região de influência de todos os pavimentos acima daquele lance de pilar, não haveria sentido o escoramento  daquele pavimento específico sem que os demais pavimentos acima fossem também escorados, e isso não pode ser feito com as pessoas vivendo normalmente em seus imóveis. No caso da recuperação de pilar, a técnica tradicional (demolição do concreto afetado e recomposição por material adequado) só deve ocorrer nos locais onde a perda de aderência entre a armadura e o concreto de cobrimento já ocorreu (regiões fissuradas, com destacamento do concreto de cobrimento), ou seja, naquelas regiões por onde não mais caminha carga. É por esse motivo que é muito importante agir rapidamente quando a corrosão ataca pilares.

É muito importante para nós engenheiros conhecermos os mecanismos envolvidos nos diversos sistemas de uma edificação ou estrutura, mesmo, por vezes, que não seja essa, nossa especialidade. Esse conhecimento mais holístico não nos dá a condição de emitirmos opinião, ao léu, acerca de tudo, a sociedade nos cobra isso, mas não somos deuses oniscientes, nem precisamos ser. Esse conhecimento nos serve tão somente, para nos defendermos desse ambiente de críticos superficiais que temos visto frequentemente. Nos calemos e estudemos!

 

 

Fábio Giovanni

Engenheiro civil formado pela Universidade Federal da Paraíba, Membro do IBRACON, Alconpat e ACI, publicou vários trabalhos científicos em congressos e simpósios nacionais e internacionais, na área de construção de edifícios, gestão e gerenciamento da construção civil e patologia das estruturas.

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Análise Dinâmica das Estruturas: Vento (parte 01)

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Técnica de injeção de fissuras

Em virtude da última postagem, recebi muitas mensagens pelo direct solicitando maiores explicações sobre a tecnologia de injeção de fissuras nas estruturas de concreto armado. Então, farei esta postagem pra explicar um pouco melhor.   A técnica consiste basicamente em se aplicar os bicos de injeção, ora em furos realizados com brocas de diâmetro específico, ora aderidos sobre a superfície do concreto, espaçados estrategicamente no caminho (path) da fissura; vedar a fissura ou quaisquer outros vazios que possam estar conectados com as fissuras na região entre bicos (ou próximos deles) com uma resina tixotrópica, geralmente a epoxídica; aplicar (injetar) nos bicos, uma resina mais fluida, ou até materiais inorgânicos; escolher uma direção de aplicação mais adequada ao material adotado e mais adequada em função do grau de preenchimento da fissura que se deseje. (a) (b) (c) Fig. 1 – Detalhe da sequência de atividades (a) realização dos furos; (b) aplicação dos bicos de perfuração; (c) colmatação das fissuras com resina tixotrópica   Existem duas situações gerais em que a injeção é adotada como forma de recuperação. A primeira ocorre quando é necessário colmatar uma fissura que esteja submetida a um fluxo de algum fluido, ou esteja na possibilidade de ocorrer (em muros de arrimo ou contenções em contato com água). Nessas situações, é mais indicado a utilização de selantes como material de injeção, as resinas acrílicas e poliuretânicas e/ou a resinas poliuretânicas hidro expansivas. Caso o fluxo seja atual e contínuo, primeiramente, injeta-se a resina hidro expansiva e depois o selante de poliuretano. Nessas situações as fissuras podem possuir causa ainda ativa, ou seja, fissuras cuja causa ainda não foi sanada. Na segunda situação, o objetivo é reestabelecer a monoliticidade do elemento estrutural, de modo que as transferência de carregamento ocorra normalmente e a rigidez do elemento estrutural seja reestabelecida.

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